terça-feira, 19 de janeiro de 2016

Certamente ele se confundiu, certamente...

Dias atrás estava assistindo a uma entrevista com o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso e me veio a lembrança algumas histórias que aconteceram no dia em que o conheci pessoalmente.

Primeiro que fiz questão de registrar o momento com a foto ao lado. Nesta hora ele já havia proferido sua palestra e acompanhado de Dona Ruth Cardoso, sua esposa, conversava com os convidados amistosamente. Não apenas divulgava o livro que recém havia lançado, mas tratava de qualquer assunto que fosse proposto. Um perfeito cavalheiro atendendo a todos de maneira muito gentil.

A possibilidade de comparecer ao evento se deu de última hora e isto me causou alguns contratempos. Para entender voltemos no tempo algumas horas.

Eu estava na Bienal do Livro em SP e fiquei sabendo que haveria um grande evento de lançamento do livro do ex-presidente em um local chamado Campo de Marte. Fiquei excitadíssimo com a possibilidade de poder participar do mesmo. Comecei a me informar e descobri que era somente para convidados. Desisti da ideia, porém comentei com o diretor da livraria onde eu trabalhava sobre meu desejo de ir.

Chegando no hotel, cansado de um dia inteiro na Bienal, fui para o banho e ao sair vi meu diretor ao telefone. Ele estava encerrando a ligação. Comecei a botar uma bermuda quando ele me disse, "vai botar teu traje guri, nós vamos no evento do presidente, mas te apresse, já estamos atrasados, uma van vem pegar os convidados aqui no hotel". Ele havia conseguido os convites.

Mais que depressa coloquei meu traje, ele também, e saímos. Estava com fome pois era em torno de 18h e minha última refeição tinha sido o almoço. Ao chegar na recepção do hotel, tentei ir até o café para pegar um lanche mas não foi possível, a van estava de saída e eu parti com o estômago vazio.

Rapidamente chegamos ao local. Era um aeroporto próximo ao hotel onde estávamos. O lançamento seria dentro de um hangar que havia sido preparado especialmente para o evento.

A primeira impressão não foi boa. O local era meio escuro, havia um palco improvisado, um púlpito, dois microfones, e caixas de som. Nada de especial. Até estranhei um evento desta magnitude num local tão inapropriado. Porém aos poucos, fui me acostumando com o ambiente e percebi que o que realmente estava fazendo a diferença eram as pessoas e a organização. Tentei me enturmar mas realmente é difícil quando não se conhece ninguém. Meu diretor nesta hora já estava com uma turma de uma editora parceira da nossa livraria.

Protocolo, palestra, agradecimentos. Terminadas as formalidades, começaram a servir bebidas, mais precisamente de dois tipos, uísque e Martini. Iniciou-se um dilema em minha mente. Meu estômago continuava vazio, beber agora seria um perigo, mas eu precisava me enturmar. Era estranho ficar recusando bebida cada vez que o garçom passasse sendo que todos ao meu redor estavam bebendo. Havia bebido uísque uma ou duas vezes na vida e não me agradei da experiência. Ainda assim era melhor do que o Martini. Pensei, "vou pegar um copo de uísque e não beber, passo o tempo com ele na mão".

Tudo parecia perfeito, até o momento em que vi o ex-presidente chegando ao grupo do qual eu fazia parte. Ele caminhava com dificuldade pois estava rodeado de pessoas que queriam sua atenção. Mesmo assim ele parava em cada pequeno grupo e conversava um pouco com todos. Ele veio se aproximando e não sei o porquê comecei a ficar muito, mas muito nervoso. Minhas mãos tremiam tanto que estava difícil manter o uísque dentro do copo. Tentei segurar com as duas mãos mas não deu certo. Olhei para os lados para ver se tinha algum local onde eu pudesse colocar o copo mas não havia. Ele estava chegando, "meu Deus, o que fazer? Preciso me livrar deste líquido". Ele estava mais ou menos a três passos de onde eu estava e olhava para nós sorridente, estava com um copo de uísque nas mãos. Dona Ruth um pouco atrás. Dois passos, a mão tremia cada vez mais, as pessoas estavam percebendo. A próxima ideia que me veio a cabeça foi tomar tudo num gole. Ainda tive tempo de pensar, "depois como algo ou bebo água e tudo se resolve", foi a última coisa que consegui pensar sóbrio!!

Tomei o uísque num só gole e fiquei satisfeito com a minha ideia, tudo parecia resolvido. Não me senti alterado. Conversei com o presidente normalmente (acho que consegui fazer ele ouvir uma ou duas palavras, tipo "eu ..... fã"). Pedi que tirassem a foto que ilustra este texto e quando ele virou as costas para ir embora, novamente me senti autoconfiante a ponto de pensar que poderia "para me enturmar" pegar mais um copo de uísque e segurá-lo nas mãos intacto pelo resto do evento.

Não vou entrar em detalhes sobre o que ocorreu até o final, mas em resumo, de fato foi o último copo que tomei naquela festa. Não vi servirem água nem comida. Pouco tempo depois pensei ter descoberto porque escolheram aquele lugar. Era um local especial que girava e fazia as pessoas se sentirem leeeeve!!! Na hora pensei que fosse para treinamento de pilotos. Nem cogitei a possibilidade de eu ser fraco para bebida, hoje tenho certeza que foi isto.

Mas o mais inusitado ainda está por vir...

Saímos dali e fomos para outra festa, esta muito maior, com música ao vivo e tudo. Era a festa de encerramento da Convenção Nacional de Livrarias, evento que ocorria paralelamente à Bienal e no mesmo hotel onde estávamos hospedados. Deveria haver umas mil pessoas ou mais, um local enorme, muito luxo!

Ali estavam servindo alguns petiscos, mas tão pequenos, que para amenizar minha fome eu precisaria comer uns cem!! Mas eu estava decidido, iria matar minha fome ali, mas iria aos poucos durante a noite. Me servi de uns três petiscos num intervalo de uns cinco minutos, e quando foi anunciado o início do baile pararam de servir. "E agora, o que farei?". Não havia o que fazer a não ser aproveitar a festa.

Neste local a variedade de bebidas era maior, tinha cerveja e vinho, por exemplo. Entretanto sempre ouvi que não é muito adequado misturar, por isso resolvi apostar novamente no uísque.

Lembro de ter tomado dois copos e que também tive a impressão de que o local girava. Dai para a frente tudo se apresenta em minha mente em forma de flashes.

Estava com uma turma de espanhóis, dois rapazes e uma moça. Me chamou a atenção que fumavam muito. Dancei algumas músicas nesta "rodinha".

O conjunto era bem eclético. Tocavam de boleros a sertanejos. A partir de certo ponto do baile também tocaram as dancinhas da moda inclusive fazendo coreografias.

De repente vi um cara subir no palco e dançar a Dança do Créu. Alguém me desafiou a subir no palco, incrivelmente eu subi (já adianto que não dancei, subi com outro objetivo).

As pessoas se divertiam muito vendo o "cara do Créu" dançando. As mais afoitas ficavam bem próximas ao palco batendo palmas e gritando. Nesta hora lembro que peguei o microfone e aproveitei minha habilidade de comunicador para animar ainda mais a galera. Não tenho certeza, mas acho que fiquei no palco um ou dois minutos e devo ter falado uma ou duas palavras, afinal não queria chamar a atenção, só subi porque fui desafiado.

Depois disto não lembro mais nada de relevante, somente que em determinado momento resolvi ir para o quarto e que fui de elevador. Ao chegar fui ao banheiro, liguei o chuveiro e entrei no box para me molhar. Pouco depois deitei na cama, molhado mesmo. Dai para a frente apagão total...

No dia seguinte fomos para o último dia da Bienal, era um dia especial pois iria conhecer o presidente de uma importante entidade de classe das livrarias do Brasil e pegar autógrafos de renomados autores.

Chegamos ao estande onde o presidente da referida entidade estava. Era um estande de uns quatro metros de extensão e ele estava no fundo da sala em uma mesa. Me aproximei, apresentei-me e ele me perguntou em qual livraria eu trabalhava, como estava o mercado e se eu havia ido no lançamento do livro do presidente. Tomamos um cafezinho enquanto algumas pessoas vinham pedir assinaturas em documentos. Falamos sobre a Bienal, sobre alguns lançamentos importantes, enfim amenidades.

Quando eu percebi que ele estava ocupado e que era hora de me retirar, agradeci a acolhida e fiz menção de me despedir. Nisto ele chamou uma secretária e pediu para tirar uma foto comigo, falei que era uma honra e tiramos. Legal mencionar que não era para nenhuma rede social, mas sim para o jornal impresso da entidade.

Quando eu já estava saindo, estava até de costas, ele me chamou e falou: "Ah, parabéns pela animação da festa de ontem, realmente você canta e dança muito bem!!! Depois que você foi embora a festa praticamente acabou.". Fiquei meio sem reação pois não entendi sua colocação. Agradeci, totalmente sem graça, e sai dali rapidamente.

Dúvidas que me perseguem até hoje: "Canta?? Dança?? Como assim? Não fiz nada disto!!".

É bem verdade que o uísque causou pequenos "brancos" em minha memória, sobretudo no momento que subi no palco, mas certamente ele se confundiu com alguma outra pessoa, certamente...

domingo, 3 de janeiro de 2016

Livros, impossível substituí-los.



Alguém pode até me chamar de ultrapassado, mas eu ainda não consegui substituir os livros por nenhuma destas "novidades" que a tecnologia nos proporciona. Não sei se isto se deve a nostalgia que é presente em minha vida quase em tempo integral e que já foi tema de diversas sessões de terapia, ou se realmente eles são insubstituíveis.

Um fato digno de nota: Somos em três pessoas em nossa casa, uma típica família dos tempos modernos, temos a nossa disposição três notebooks, um desktop, um tablet e dois smartphones, não nego que eles tomam grande parte do nosso tempo, mas também não é difícil nos encontrar (todos, inclusive meu filho de 12 anos) lendo um bom livro, fato que se intensifica nas férias.

Sou daqueles que acredita que em nossas vidas nada acontece por acaso e durante cinco anos tive a oportunidade de trabalhar em uma livraria, atribuo a isto o fato de gostarmos tanto de livros. Eu era devidamente remunerado para o ofício que exercia, mas mesmo que nenhum dinheiro tivesse ganhado, as experiências que vivi já seriam uma bela remuneração.

Participei de diversas Bienais do Livro e Convenções de Livrarias, conheci pessoalmente diversos autores, donos de editoras e de grandes livrarias, pude ver o quão difícil é trabalhar com livros no Brasil e o quanto a ganância atrapalha o desenvolvimento cultural do nosso país. Sim, pude ver isto muito claramente convivendo com os protagonistas do mundo dos livros por incrível que pareça.

Naquele período ganhei muitos livros. O objetivo era que fossem lidos para uma adequada divulgação entre os clientes da livraria onde eu trabalhava. Não dei conta de ler todos e os guardei de maneira muito inadequada dentro de caixas, por muitos anos. Nem lembrava de quantos tinha e quão relevantes eram, estava tudo escondido, o meu "tesouro". De que vale mesmo um tesouro se não podemos pelo menos vê-lo?

Agora, passados mais de oito anos, finalmente pude construir um móvel para abrigar a minha biblioteca. Entendi perfeitamente porquê algumas pessoas se negam a emprestar, vender ou doar seus livros. Organizando o meu "tesouro" fiz uma verdadeira viagem no tempo. Acessei coisas que estavam bem escondidas em meu inconsciente, foi fantástico. Mas o mais interessante foi que vi que tenho material para ler por muito tempo.

Entre os livros que estavam guardados já li dois, e destaco agora o excelente "Casais Inteligentes Enriquecem Juntos" do meu conterrâneo Gustavo Cerbasi.

Ganhei o livro na Bienal de 2004 e nesta época, conforme escrito na capa, o livro já estava na sua 55ª edição. Mesmo assim não me chamou atenção, achei que era mais um "livrinho" com dicas que eu, formado em Contabilidade e portanto acima da média da população no assunto de finanças, não precisava ler. Para ser sincero pensei ser um livro de autoajuda. Também pensei que o enriquecimento era uma utopia, não estava bem familiarizado com os conceitos. Deixei o mesmo guardado todos estes anos, até inaugurar a minha biblioteca.

Quando comecei a organizar meu "tesouro" em algum momento peguei na mão este livro, novinho em folha, autografado (eu não só conheci como assisti uma palestra e conversei com o autor), prontinho para ser lido e de novo pensei, "com tantos livros para serem lidos e com o tempo limitado que tenho, não será por este que irei começar" e guardei-o, desta vez pelo menos em local digno na minha nova biblioteca, para ser lido no futuro.

Mas o acaso, ops, ato falho, nada acontece por acaso, me fez conversar com duas pessoas, uma aficcionada por enriquecer, e outra já rica. O primeiro, um jovem com pouco mais de 20 anos que tem metas bem claras de quanto quer possuir em dinheiro em cada fase da vida; a outra com pouco mais de 40 anos, que começou a poupar cedo, teve disciplina e hoje já possui independência financeira. Vi que ambos eram pessoas "normais", conclui que tentar ser rico ou ser rico é algo possível para qualquer indivíduo. Me interessei pelo tema, li alguns textos em blogs especializados e lembrei que tinha guardado um livro sobre o assunto que ignorei por duas oportunidades. Botei na mala e o levei para as férias, foi o primeiro de três a ser lido, e valeu a pena.

Independente do estágio de vida em que a pessoa se encontra o livro vai ser relevante. Para mim ele teve o efeito de um "soco no estômago". Me mostrou uma realidade que eu conhecia, mas que não dava a real importância. Às vezes perdia sono pensando no futuro mas nunca fiz nada para me preparar para ele. Encarar a realidade e planejar o futuro é decisão de cada um. Saber como as coisas realmente acontecem em termos de independência financeira é a proposta do livro e isto é plenamente satisfeito nesta obra.

Importante ressaltar que enriquecer não depende apenas da vontade, disciplina e conhecimento em relação ao mercado financeiro, mas sim de uma série de fatores, isto é expresso no livro diversas vezes. Mas mesmo que tudo ocorra da forma inesperada, uma pessoa que se preparou vai conseguir enfrentar as adversidades com muito mais facilidade do que uma pessoa que não planejou sua independência financeira.

Vários paradigmas são quebrados no livro, para mim os mais relevantes são em relação aos bancos (sim, eles podem trabalhar a nosso favor) e a casa própria. Não vou descrever aqui como se deram estas quebras de paradigmas para instigar quem estiver lendo este texto a ler a obra, mas vou dizer que para mim significaram realmente uma nova forma de ver estes aspectos da vida financeira.

Por fim, um agradecimento ao meu filho Gabriel, meu grande incentivador a escrever neste blog. Ele sabe que eu gosto de expor minhas opiniões e que invento um monte de desculpas para não fazer isto. De qualquer forma ele não se cansa de me instigar e este texto só foi escrito por que ele me "cobrou" pelo menos umas cinco vezes, obrigado filho, você me inspira. Ah!! Já ia esquecendo, não me peçam o livro emprestado, tenho dois bons motivos não fazê-lo. O primeiro é que nos próximos meses vou precisar consultá-lo várias vezes para consolidar bem os conceitos e o segundo e mais importante, vou emprestá-lo para alguém muito especial lê-lo, minha esposa Andréia, afinal "Casais Inteligentes Enriquecem Juntos".